Programa de formação de professores mostra que é possível fazer os estudantes gostarem de matemática

Quando se ensina algo a alguém, o conteúdo é importante, mas não é tudo. É preciso levar em conta também a forma como este conteúdo será transferido para o outro. Repensar as abordagens para o ensino da matemática e o papel dos educadores nesse processo é o principal propósito de um programa do Centro Lemann e Universidade Stanford desenvolvidos especialmente para promover a formação de professores brasileiros.

O Programa de Especialização Docente (PED) foi trazido para o Brasil em 2016 e promoveu a formação de educadores voltados para a área da matemática que agora estão multiplicando os conceitos e práticas propostos pelo programa. Em Curitiba, a rede de colégios Positivo – única instituição do sul do Brasil a participar do programa –  já transformou os ensinamentos do PED em um curso de  Pós-Graduação voltado para professores do Grupo. E em poucos meses, os primeiros resultados já começam a aparecer.

A matemática que sempre foi encarada com resistência e receio por parte dos alunos, já está ganhando outro status. Fabiana Damas, professora do 2º ano do Ensino Fundamental do Colégio Positivo Internacional, conta que uma das principais vantagens do programa é mostrar aos professores outras formas de ensinar a disciplina.

Uma delas, bastante importante, e que vem surtindo efeito junto às crianças, é a valorização do erro. Estudos mostram que é possível aprender muito mais com o erro do que com o acerto. “Quando você erra, fica alerta, tenta descobrir onde foi que errou e o que é necessário para não repetir o erro”, ressalta Fabiana.

Segundo ela, isso é facilmente comprovado pela reação dos alunos. Ela destaca ainda que outro ponto importante nessa nova proposta é mostrar para a criança que não tem problema errar. “O erro faz parte. É natural as pessoas errarem e estamos mostrando que nenhum deles precisa ter medo de errar. Isso tranquilizou muito os alunos e fez com que perdessem a resistência em relação à matemática”, afirma. Guilherme Paiva, de 7 anos, hoje afirma convicto: “Eu gosto de matemática. E não tenho medo de errar porque não tem problema nenhum errar, todo mundo erra!” A pequena Nathália Dalarmi, também de 7 anos, mostra que está atenta aos ensinamentos da professora. “Cada vez que a gente erra, a gente aprende um pouquinho. Nosso cérebro cresce porque a gente vê o erro e vê como não fazer de novo. Os erros são aceitos e analisados”, diz.

A questão motivacional também merece destaque. Alguns conceitos do PED indicam que é preciso criar condições para que todos – sem exceção – se desenvolvam, cada um a seu tempo. “Estamos tentando criar em sala de aula a mentalidade de que o exercício ou atividade só acaba quando todos terminam. Quem chega ao fim primeiro não pode anunciar o resultado para não desestimular os demais colegas. A perspectiva dos alunos deve sempre visar o coletivo e nunca o individual, para que uns possam estimular e ajudar os outros”, explica a professora Marilda Fagundes, assessora do Programa de Especialização Docente (PED) Brasil nos Colégios Positivo. Para evitar descompassos entre os alunos, a rapidez deixou de ser algo desejável ou valorizado. “Antes, os alunos acreditavam que ser rápido para resolver a questão era sinônimo de ser bom. Queremos tirar isso da cabeça deles. O tempo é relativo e cada um tem o seu ritmo. Um estudante pode levar mais tempo para chegar ao resultado e ter o raciocínio tão bom quanto aquele que terminou antes”, diz Marilda.

Quando os alunos são estimulados, sem pressa e sem que o receio ou a resistência atrapalhem, eles conseguem desenvolver melhor o pensamento crítico e, consequentemente, a capacidade de raciocinar sobre a matemática. Dessa forma, o estudante é capaz de descobrir o seu próprio caminho, usar suas próprias estratégias para chegar ao resultado. O programa mostra que é preciso evitar o método de ensino por meio de processos, que inserem regras prontas para encontrar as soluções. Segundo Marilda, os professores que estão participando do PED agora tentam passar os conceitos usando situações simples do dia a dia. “Queremos que os alunos utilizem sua própria bagagem para ajudar nas descobertas. O fundamental é fazê-los absorverem o conceito de forma prática para que se apropriem do conhecimento”, explica.

A professora Fabiana comemora os efeitos de tudo isso sobre a turma. Segundo ela, a receptividade das crianças em relação à matemática, desde que começaram a trabalhar dentro dessa nova proposta, aumentou consideravelmente. “O rendimento dos alunos melhorou. Agora eles conseguem lidar melhor com as dificuldades que sentem em relação à disciplina. Esse é o caminho, basta que nós, professores, estejamos dispostos a abandonar antigas práticas e conceitos para entender, de uma vez, que o estudante pode encontrar o seu próprio jeito de aprender matemática”, finaliza.