Segundo educadores, brincar é essencial para o desenvolvimento infantil - e a falta de um espaço para isso pode comprometer inclusive a alfabetização. Saiba o que as escolas podem fazer para compensar a falta de estrutura

Sentados no chão, correndo ao ar livre, explorando e fazendo descobertas por onde passam. Propostas pedagógicas que priorizam a brincadeira no centro das atividades escolares da Educação Infantil são, na opinião de especialistas, a melhor forma de trabalhar o desenvolvimento das crianças. Esse tipo de recomendação vai de encontro com o que prevê a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) – documento que define o que as escolas devem ensinar em cada série – que coloca a brincadeira e as interações sociais como “eixo estruturante” para a Educação Infantil (crianças até 6 anos).

“Brincar é essencial para o desenvolvimento integral do ser humano nos aspectos físico, social, cultural, afetivo, emocional e cognitivo. Vai além do lazer, é o momento de compartilhar, de construir regras e combinados, de experiências a partir do coletivo, de se colocar no lugar do outro”, explica Merylin Franciane Labatut, gestora de Educação Infantil do Colégio Positivo, em Curitiba (PR). Segundo ela, é brincando que a criança tem a possibilidade de compreender pontos de vistas diferentes, resolver conflitos, levantar hipóteses matemáticas, científicas e sociais.

Apesar do discurso dos especialistas destacar cada vez mais a importância do brincar, a realidade da maioria das escolas brasileiras mostra que está longe de acompanhar essa orientação. Segundo o Censo Escolar 2016, 41,3% das creches brasileiras não têm parquinho. Este número é ainda maior – 58,4% – se considerarmos colégios com pré-escola. Para contornar a falta de estrutura, pedagogos e gestores escolares precisam planejar a Educação Infantil considerando que momentos vivenciados em espaços externos à sala de aula sempre oferecem infinitas possibilidades. “Todo ambiente pode ser um espaço pedagógico. É possível criar situações do brincar em corredores, pátios e gramados”, afirma Franciane. Segundo ela, programar atividades externas é importante porque é ao ar livre que a criança amplia a imaginação, dialoga com outras estruturas e, principalmente, com a natureza. “Os pequenos demonstram sempre grande interesse e encantamento por gravetos, folhas, tampas, caixas e outros materiais não estruturados que encontram pelo caminho”, destaca.

Se, de um lado, a ausência de parquinhos nas escolas contraria a orientação de especialistas, de outro, pode ser explicada por meio de números. Uma pesquisa realizada em dez países, entre 2016 e 2017, ouviu 12 mil pessoas e atestou que 51% dos pais brasileiros consideram os trabalhos escolares mais importantes do que o brincar para o desenvolvimento das crianças. “As famílias, por vezes, não compreendem o brincar como uma ação pedagógica fundamental para o aprendizado e, posteriormente, para a alfabetização. Cabe à escola propor espaços de formação para os pais, mostrando pesquisas, ações e resultados a partir do brincar, ressalta a educadora” Os argumentos, segundo ela, são inquestionáveis: “brincar requer planejamento, estudo, pesquisa, organização, e o resultado são crianças mais preparadas para o mundo letrado, com repertório para viver em sociedade, com maior autonomia, curiosidade e cuidado pelo mundo e pelo próximo”.